Iraque-EUA: Como perder apoio popular em dois anos

Nova York, 18/07/2005 – Quando o jornalista Aaron Glantz viajou da Jordânia para o Iraque em um amassado táxi branco e laranja, no dia 29 de abril de 2003, se surpreendeu ao ver que a maioria dos civis de Bagdá haviam saído relativamente ilesa dos bombardeios realizados pelos Estados Unidos. "Para mim, foi a primeira vez que o Pentágono (sede do Departamento da Defesa norte-americano) estava dizendo a verdade", escreveu este colaborador da IPS em seu novo livro "How America Los Iraque" (Como os Estados Unidos perderam o Iraque), publicado este ano pela editora Penguin.

Enviado pela emissora norte-americana Pacifica Radio, Glantz alugou um quarto na capital do Iraque e se dedicou a entrevistar vários civis iraquianos que, embora nada orgulhosos do fato de seu país ter sucumbido diante dos Estados Unidos, mantinham certa esperança em um futuro melhor. "Claro que as coisas estão difíceis agora, mas é temporário. Não há eletricidade, por exemplo, mas os norte-americanos acertarão isso", disse a Glantz, entre xícaras de chá e bolachas, Manu Nur, um iraquiano cristão. "Você sabe, as pessoas daqui sofreram a opressão por muito tempo. Por 35 anos tiveram o Partido Baath (ex-governante). Nunca se pôde dizer nada. Por isso, a primeira resposta será pegar em armas", afirmou Nur. "Não temos polícia agora porque os Estados Unidos expulsaram todas as forças de Saddam Hussein. Vai demorar, mas tudo ficará bem. Será muito melhor do que antes", assegurou naquela oportunidade.

Entretanto, dois anos depois, ainda não há serviço de água potável e os sistemas de energia elétrica funcionam de maneira esporádica. Há escolas abertas, mas os pais temem pela caminhada que os filhos devem fazer pelas ruas de Bagdá para poderem estudar. O desemprego afeta 70% da população economicamente ativa. "Quando os norte-americanos derrubaram Saddam Hussein, a maioria dos iraquianos estava feliz, mas os Estados Unidos acabaram com essa confiança quando estabeleceu seu próprio governo (A Autoridade Provisória da Coalizão), prendeu dissidentes e os levou para a prisão de Abu Ghraib", onde soldados torturaram vários prisioneiros, escreveu Glantz em seu livro. "Tampouco restauraram a eletricidade, e deram todos os empregos a um punhado de contratados estrangeiros bem pagos", acrescentou.

O Fundo de Desenvolvimento para o Iraque, dirigido pelos Estados Unidos e sucessor do programa Petróleo por Alimentos, da Organização das Nações Unidas, agora é o centro de um escândalo de milhares de milhões de dólares, a maioria em dinheiro. O programa "Petróleo por Alimentos" vigorou entre 1996 e 2003 como exceção ao embargo internacional imposto ao Iraque por sua invasão do Kuwait em 1990. Este sistema permitia a venda de quantidades limitadas de petróleo para adquirir alimentos, medicamentos e outros bens humanitários, sob supervisão da ONU e em especial de seus cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia).

Mais de 1.700 soldados norte-americanos e dezenas de milhares de civis morreram no Iraque desde a invasão em 2003. O número de atentados com carro-bomba aumentou de 18, em junho de 2004, para 135 no mês passado. O secretário da defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, admitiu em recente entrevista na televisão que a insurgência iraquiana poderia continuar por mais 12 anos. entretanto, Glantz não acredita que os"falcões" (os mais conservadores no governo Bush) tenham se prestado a desestabilizar e saquear o Iraque.

"Creio que os Estados Unidos cometeram erros ao reconstruir o Iraque e não ter feito algumas coisas a respeito. por exemplo, penso que muitas boas pessoas na Autoridade Provisória pensavam realmente que o Iraque não estava pronto para a democracia, e acredito que estavam equivocados", disse Glantz à IPS em entrevista por correio eletrônico. "A falha de Washington é que apóia a democracia somente se o governo eleito é amistoso com os fins estratégicos da administração Bush", acrescentou. Um dos grandes erros táticos dos Estados Unidos, segundo o jornalista, foi a ofensiva contra a cidade de Faluja, em abril do ano passado, que incluiu ataques de artilharia e bombardeios aéreos, e franco-atiradores norte-americanos disparavam inclusive contra as ambulâncias que tentavam entrar na cidade sitiada. Com 200 mesquitas, Faluja é um dos lugares mais importantes para os muçulmanos sunitas.

Terminada a ofensiva, o estádio de futebol da cidade foi transformado em um cemitério para centenas de civis. Pouco depois, em represália, iraquianos furiosos lincharam quatro contratados norte-americanos. "Não havia lugar suficiente nos cemitérios da cidade", explicou Fadel Abbas Khlaff, que ajudou a enterrar as vítimas de Faluja e depois se uniu à insurgência. Quando Glantz visitou o estádio encontrou Ahmed Saud Muhasin al Isawi, que acabara de identificar os túmulos de seus dois sobrinhos adolescentes. "Eles ficaram em suas casas e não saíram, mas mesmo assim estão mortos. Como puderam (os norte-americanos) fazer isto? Há famílias e crianças pequenas mortas", contou um desconsolado Isawi.

A incursão contra Faluja, que terminou em maio com uma trégua entre as forças da coalizão e os rebeldes, acabou por completo com a imagem dos norte-americanos como "libertadores" do Iraque, segundo Glantz. "Creio que um dos principais problemas do governo Bush é pensar que luta contra um número finito de terroristas no Iraque, e quanto matar todos eles a insurgência acabará", disse o jornalista. "Mas o que Bush não se dá conta, ou não entende completamente, é que cada pessoa inocente morta no Iraque tem uma família, e quando essa pessoa é assassinada há dezenas de novos partidários da resistência armada", acrescentou.

O livro de Glantz é uma reportagem fidedigna sobre o primeiro ano da ocupação norte-americana no Iraque. as dezenas de entrevistas com iraquianos de todas as camada sociais – de médicos, políticos e líderes religiosos até separatistas curdos e membros do antigo regime do Baath – fazem com que o relato seja convincente e único. Enquanto os grandes meios de comunicação dos Estados Unidos silenciam as vozes dos próprios habitantes do Iraque, Glantz reflete as comovedoras, e com freqüência conflitivas, opiniões de uma nação que passou de uma forma de opressão para outra.

"Quando regressei aos Estados Unidos, em maio de 2004, fiquei surpreso de ver que ninguém tinha nenhuma idéia do que acontecia em Faluja", disse Glantz à IPS. "Não viam as mesmas imagens que as pessoas do resto do mundo, como a de um estádio de futebol transformado em cemitério para centenas de homens, mulheres, velhos, meninas e meninos mortos", afirmou. "Talvez tivesse ajudado se as redes de informação nos Estados Unidos não estivessem concentradas exclusivamente nos soldados e que houvessem dedicado pelo menos o mesmo tempo aos 25 milhões de iraquianos", afirmou o jornalista. (IPS/Envolverde)

Katherine Stapp

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